Fevereiro

 

inclinada ao espelho oferece as costas e na voz, aquele tom metálico que atinge fino e fundo a membrana alerta e escondida, agudo em cada tom. Dispara sem parar palavras eufóricas e sobrepostas precisa consumir o que lhe queima.

Pinta o olho toda minúcia. Preto dourado lantejoulas. Alonga cada cílio volúpia. Ostenta plumas e rendas negras. Vermelho sangue na boca e ao peito, pérolas.

Desponta na São João como criança caçando vagalumes a luz do dia

purpurina átomo faiscante da mais pura alegria sintética

adentro
emaranhado de orientação, placas que se contradizem, avisos pichados que te sugerem desobediência civil, caminho dissimulada e encontro nesse muro do quarto a direita uma projeção, o quarto não tem saída entra e sai pela mesma porta, imagens esmaecidas, seus olhos que me miram e logo depois cerram e quando despertam cristaliza a mais pura imagem imaculada de nossa senhora da dores.
impávida catedral de 1300 anos de historia, em alto contraste sorri.
me retiro, ouço som de chaves, entro num corredor estreito,  janelas bem no alto, nem na ponta do pé consigo alcançar, toco na ponta do lençol estendido quando desequilibro e caio na sala de luzes vermelhas com um neon Freak Show Museu de Cera,  no centro um sofá negro de couro, grandes botões formam sua espalda e os pés adornados de madeira escura, me vejo pálida ali sentada sorrindo a cada palavra que me atinge tão docemente como um trem de altavelocidade que te confronta as duas da manha numa noite paulistana em frente a av. São Luiz, poesia na caixa de som, a canção perfeita pra embalar o coração etílico, já não estou ali, sei que construía esse labirinto, sabia que voltaria pra ver meu riso de dentes cerrados cobertos pelos lábios, o mais puro abandono de emoções, contido.

sigo olhando pra traz e vejo uma porta desmoronar, você errou o caminho, corra.
paro um táxi numa rua de pedra, o fim dela fica de frente ao mar, uma banheira branca pequena de cortinas transparentes sobre um chão de areia habitada por personagens de el Bosco, todos sempre em frenético movimentos, entre o fim da rua e a areia tem uma esteira rolante, o carro  patina mas o sinal é claro terça feira não é dia de festa, aguarde o sábado quando ela é desligada por exatos 16 minutos, não se atrase. a porta do carro se abre no corredor que dá direto pra ponta da minha cama onde deito e projeto no teto novos mapas, há uma pista de avião abaixo do meu edredom e ali pousam e sobem todo tipo de embarcação, procuro um navio.

 

 

Você tem um redemoinho entre suas mãos
vibrante e poderoso
toda a força dos tendões dos braços se agitam
responde nas costas a escapula esquerda que se tenciona, formiga na ponta dos seus dedos que aflitos ferem com as unhas a palma da mão,
um redemoinho não se segura, não se apalpa, não se conforta
apenas apara tuas bordas
não são os músculos que retém o que te faz forte
é no que te beija os olhos e te faz responder com um sorriso a pressão colorida que brota do movimento doloroso da espiral.

você levanta
calça seus sapatos e toma seu café
são 10h da manhã e faz frio no país tropical
gelada a ponta do nariz, a íris clara
um olhar nada poético um tanto patético pra avenida e pras placas do supermercado
o rosto dela não tem nenhum encanto alem da exata textura do esquisito
o suficiente pra te fazer olhar com mais atenção e la esta
a ponta da isca que você já mordeu
um pão na chapa, uma media e o dia é só mais um.

quando a onda volta
a ponta da praia
arrebenta.

de certo ele partiu
ninguém sabe se olhou pra trás
ou, se no desenrolar do caminho
sorrindo, cantarolou canções.

 

ficou a ausência como presença
-eis aqui o que não se conhece
aquecido pelo calor frio e continuo do desconforto
saciado de tanta falta.

 

O mar
trouxe  um corpo atado ao barco
com formas de veludo escuro e pedra branca.
Quem encontrou o homem não soube dizer se ele ainda tinha os olhos abertos

mergulhar e sem se afogar, ser outro

Aguas escuras, geladas, corrente.
não sente os pés a tatear a rocha escorregadia
anestesiadas as coxas em vibração continua insitindo em permanecer em pé
já não sente a cintura de malicioso equilíbrio
e adormece teu sexo,
afunda o peito disparado,  fôlego
afunda o rosto
– é como chorar.