Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?

Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?

– Hilda H.

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escuta toda vez que exalo seu nome e volta
me olha muito séria com seus olhos negros – ela é sempre muito séria
sinto penetrar na nuca toda essa potência de amor e verdade
nunca houve palavras não ditas
cultivamos profundidades
discutimos por menores das nossas questões distantes
mantemos no cume do indizível o amor
que não vivemos
dói nela meu choro por outros mares
dói em mim o tão pouco a oferecer
tão claro como asfalto
nossas humanidades se olham de frente

Cena de filme de desamor
não é cinza inverno solidão, nem vazio azul melancolia

 

em primeira pessoa é absolutamente ordinário,
racista, normativo, patriarcal, machista.

 

cliché dizem os de fora, violento dizem os de dentro

 

para sobreviver, descascar a beleza do ego megalomaníaco colonial,
é dolorido colorido perceber, em si, desejo colonizado. O que em mim, de você, desperta a lâmpada do sim? Em uma epifania, entender que sua historia de amor estava historicamente fadada a esse fim.

 

carecemos de novidade, 500 anos tudo igual.
-enfim libertar o leão para que ele se sacie

brindo

Aos dramáticos que me atravessaram e ao que sou

Agradeço

Por me fazer ver a beleza no exagero, me interessar por mentiras sinceras
e olhar com piedade pra realidade fria, careta e covarde.

Pela irreverência escondida atrás da porta, a força de adorar pelo avesso e mesmo sabendo que vcs são burros cara como seis são burros e mesmo assim e ainda assim jogar o jogo da sedução pra ferida que só o amor do outro sara, conquistar uma coisa qualquer pra juntar gargalhadas e lágrimas, camaleoa me transformar com a força de milhões de sóis baiano, adorar o menino deus e no fim do dia preguiçosa me deliciar como tigresa na paz que o sexo traz.

Aos malditos que me instigaram a amar o excluído, o escondido  e o vôo que só janelas altas e ilícitas proporcionam, pra que de haicai em prosa meu bordel coração seja ocupado por poetas bixas putas suicidas, um brinde.

Agora sento sobre os princípios da civilização branca e desmonto mito por mito forjado sobre o pensamento ocidental, que a descoberta do capital acha mais prazerosa ser a pequena peça da ignição de uma estrutura poderosa do que sentir o poder e força vibrando seu corpo todo ao encarar o tempo e o amor com a medida da sua unidade humana

Ossos, veias, órgãos e finitude

como se nunca acabassem os movimentos dos seus braços longos
volta por volta a se desenrolar da minha cintura

 

 

tem uma pedra no topo da montanha
tem uma montanha em cima da pedra
atados a esse fiapo velho
o fio da história que ainda costura

o que fazer agora que a noite já desceu
e estamos aqui crispados de frio
atados a esse fiapo velho
o fio da história que ainda costura

o louco na cidade rompeu a manhã
se perdendo em milhões de corredores
ainda hoje está no labirinto, de costas pra saída
a bradar velhos verbos
atados a esse fiapo velho
o fio da história que ainda costura

 

Exercício de criação número primeiro
é solitário o processo do artista em auto-narrativa.