Você tem um redemoinho entre suas mãos
vibrante e poderoso
toda a força dos tendões dos braços se agitam
responde nas costas a escapula esquerda que se tenciona, formiga na ponta dos seus dedos que aflitos ferem com as unhas a palma da mão,
um redemoinho não se segura, não se apalpa, não se conforta
apenas apara tuas bordas
não são os músculos que retém o que te faz forte
é no que te beija os olhos e te faz responder com um sorriso a pressão colorida que brota do movimento doloroso da espiral.

você levanta
calça seus sapatos e toma seu café
são 10h da manhã e faz frio no país tropical
gelada a ponta do nariz, a íris clara
um olhar nada poético um tanto patético pra avenida e pras placas do supermercado
o rosto dela não tem nenhum encanto alem da exata textura do esquisito
o suficiente pra te fazer olhar com mais atenção e la esta
a ponta da isca que você já mordeu
um pão na chapa, uma media e o dia é só mais um.

quando a onda volta
a ponta da praia
arrebenta.

de certo ele partiu
ninguém sabe se olhou pra trás
ou, se no desenrolar do caminho
sorrindo, cantarolou canções.

 

ficou a ausência como presença
-eis aqui o que não se conhece
aquecido pelo calor frio e continuo do desconforto
saciado de tanta falta.

 

O mar
trouxe  um corpo atado ao barco
com formas de veludo escuro e pedra branca.
Quem encontrou o homem não soube dizer se ele ainda tinha os olhos abertos

mergulhar e sem se afogar, ser outro

Aguas escuras, geladas, corrente.
não sente os pés a tatear a rocha escorregadia
anestesiadas as coxas em vibração continua insitindo em permanecer em pé
já não sente a cintura de malicioso equilíbrio
e adormece teu sexo,
afunda o peito disparado,  fôlego
afunda o rosto
– é como chorar.

dançar no fim do dia
entre o sofá e a estante
nosso encontro

depois de exaustivamente vivermos pela cidade a salvar o mundo
e a própria pele.

amarrotados das dobras dos dias descansar nos ombros
o peso dos sonhos que carregamos enquanto debruçamos na vida real

e nesse meio estar
buscar no fundo da tua boca
o cheiro guardado da palavra amor.

os homens já estavam perdidos na terra, caminhavam entre sons e movimentos que os encantariam ou os devorariam. Os dias amplos e as noites brutalmente assustadoras. Para encontrar a beleza no escuro, um dia parou pra olhar acima. Esquecendo a tensão de sobreviver no breu faminto, fez das estrelas sua primeira forma de sair de si, de conectar-se com a imensidão, os sonhos acordados. Ali, na escuridão, atento aos movimentos e ruídos cotidianos, se apegou àquela luz/estrela que dançava no céu, sem saber que a luz das estrelas, ao chegar na sua retina, era um anúncio da morte desse astro. Deixou-se seduzir, formou-se criador de ilusões. Um dia, um clarão passou rápido e arrebentou seu peito cortando o horizonte. O homem ali sentado, com a boca seca e olhos abertos. Todos os sentidos que deveriam estar alerta a sua sobrevivência migraram para o alto. Esqueceu de si, do seu corpo frágil e da sua condição de animal sem presas. Esperou, desejou, mentalizou, visualizou… Um torcicolo brutal e câimbras nos braços que estendeu para aparar a estrela cadente. Tantas e tantas noites e então, com o vazio da incompreensão desse fenômeno, passou a temer as forças da natureza que tinham seu brilho tão forte e passageiro quanto flash de uma foto. Com os olhos ardendo e a cabeça atordoada, plantou no chão da tua caverna de paredes desenhadas a etimologia da palavra desastre.