Todo domingo minha madrinha se colocava tristíssima.
Do fundo do corredor ouvia a moda de viola rolando baixinho, eu sabia, ela estava triste. Contava historias do interior.  Eu ouvia e via todas as pessoas usando o corte franja com mullet, uma viola no braço, uma sofrência no peito. Como na capa do disco.

 

A dinda abandonou o grande amor no portão.
Largou tudo pra tentar uma vida melhor, mais digna em SP. Conheceu meu padrinho, 20 anos mais velho. Separado, militar que tapava os ouvidos pra essa dor e ocupava todos os outros espaços, casa, filhos, conta no banco. Ela amava ele, silenciava quando achava prudente, gritava quando achava que devia. Chorava no meu quarto no fim do domingo.

 

20 anos de união quando enviuvou. Vida pra tocar, papelada a resolver e deu-se, ainda era casada, com seu grande amor que abandonou esperando no portão ela voltar da costura, como de costume. Tem que resolver.
Se encontraram envelhecidos na pracinha da cidade, ele muito sofrido, a cara acabada de sol, os cabelos ralos, os olhos iguais, ela disse.

 

Chorou.

 

Voltou pra capital e escreveu uma carta – deveriam tentar novamente, afinal uma emoção ignorada a tanto tempo e ainda tem sol, não se pode privar a vida desses momentos.  Ele respondeu com uma letra muito ruim, fizeram planos. O grande amor morreu 2 meses depois, fulminante, disseram. Era pra ser e não era pra ser, ela me disse nesse fim de domingo com uma das minhas filhas nos braços.
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