eu fantasio horas  o grito, depois o silêncio.

“Chego meio prosa, sombras no rosto.
Não tenho muitas palavras como pensei.
Coisa ínfima, quero ficar perto de ti.
Te levo para a avenida Atlântica beber de tarde
e digo: está lindo, mas não sei ser engraçada.

“A crueldade é seu dilema…”

O meu embaraço te deseja, quem não vê?
Consolatriz cheia de vontades.
Caixa de areia com estrelas de papel.
Balanço, muito devagar.
…”

Ana C.

 

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Todo domingo minha madrinha se colocava tristíssima.
Do fundo do corredor ouvia a moda de viola rolando baixinho, eu sabia, ela estava triste. Contava historias do interior.  Eu ouvia e via todas as pessoas usando o corte franja com mullet, uma viola no braço, uma sofrência no peito. Como na capa do disco.

 

A dinda abandonou o grande amor no portão.
Largou tudo pra tentar uma vida melhor, mais digna em SP. Conheceu meu padrinho, 20 anos mais velho. Separado, militar que tapava os ouvidos pra essa dor e ocupava todos os outros espaços, casa, filhos, conta no banco. Ela amava ele, silenciava quando achava prudente, gritava quando achava que devia. Chorava no meu quarto no fim do domingo.

 

20 anos de união quando enviuvou. Vida pra tocar, papelada a resolver e deu-se, ainda era casada, com seu grande amor que abandonou esperando no portão ela voltar da costura, como de costume. Tem que resolver.
Se encontraram envelhecidos na pracinha da cidade, ele muito sofrido, a cara acabada de sol, os cabelos ralos, os olhos iguais, ela disse.

 

Chorou.

 

Voltou pra capital e escreveu uma carta – deveriam tentar novamente, afinal uma emoção ignorada a tanto tempo e ainda tem sol, não se pode privar a vida desses momentos.  Ele respondeu com uma letra muito ruim, fizeram planos. O grande amor morreu 2 meses depois, fulminante, disseram. Era pra ser e não era pra ser, ela me disse nesse fim de domingo com uma das minhas filhas nos braços.
 —

 

 

Não crio mais ao peito camas de grama curta. O amor me encontra descendo a rua da Consolação, me golpeia a cara como uma rajada de vento gélido, tiro o lenço da cabeça e protejo os ouvidos, nariz e boca. Aos olhos tudo embaraçado, como meu cabelo, me escapa o fio das possibilidades.

Quem virá bater à porta?

Numa porta aberta se entra

Numa porta fechada um antro

O mundo bate do outro lado de minha porta.

Pierre Albert-Birot

“e se eu disser que vi um pássaro no teu sexo”

estende o lençol e enfileira os objetos
passamos a tarde a procurar cortinas pra ocupar a escuridão
desenha as melhores táticas na mão que desce do seu peito ao sexo,
lenta.

dançar com a musica
seguir a festa
parando nas rodas, sorrindo e deslizando ao próximo ponto
seguir o ritmo bossa nova enquanto no peito uma cantora histérica
de punkrock grunge  vestindo o melhor da motown club
com uma pedra quente no peito grita
preso no redemoinho da fome
nenhum ruído escapa a boca
mashup
eu tenho aqueles passos ensaiados
e a visão dos seus braços no ar