tem uma pedra no topo da montanha
tem uma montanha em cima da pedra
atados a esse fiapo velho
o fio da história que ainda costura

o que fazer agora que a noite já desceu
e estamos aqui crispados de frio
atados a esse fiapo velho
o fio da história que ainda costura

o louco na cidade rompeu a manhã
se perdendo em milhões de corredores
ainda hoje está no labirinto, de costas pra saída
a bradar velhos verbos
atados a esse fiapo velho
o fio da história que ainda costura

 

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Exercício de criação número primeiro
é solitário o processo do artista em auto-narrativa.

Eu te conheço até o osso por intermédio de uma encantação que vem de mim para ti. Só há uma coisa que me separa de você: o ar entre nós dois. Às vezes para ultrapassar esse quase cruel afastamento, eu respiro na tua boca que então me respira e eu te respiro. Mas só por um único instante, senão sufocaríamo-nos.

In : Esboço para um possível retrato – Clarice Lispector

a ira não se permite ignorar
foi tão inesperado que a recebi aos prantos
desavisada
o corpo chorou uma tarde inteira
algo mudou e eu não sabia o que fazer.

 

tua cara estalada na porta de entrada
onde bati até quebrar os ossos da mão
pra entender que te movimentar internamente
é golpear parte viva do meu próprio corpo

 

O espaço é limitado. Os lugares não.

eu fantasio horas  o grito, depois o silêncio.

“Chego meio prosa, sombras no rosto.
Não tenho muitas palavras como pensei.
Coisa ínfima, quero ficar perto de ti.
Te levo para a avenida Atlântica beber de tarde
e digo: está lindo, mas não sei ser engraçada.

“A crueldade é seu dilema…”

O meu embaraço te deseja, quem não vê?
Consolatriz cheia de vontades.
Caixa de areia com estrelas de papel.
Balanço, muito devagar.
…”

Ana C.

 

Todo domingo minha madrinha se colocava tristíssima.
Do fundo do corredor ouvia a moda de viola rolando baixinho, eu sabia, ela estava triste. Contava historias do interior.  Eu ouvia e via todas as pessoas usando o corte franja com mullet, uma viola no braço, uma sofrência no peito. Como na capa do disco.

 

A dinda abandonou o grande amor no portão.
Largou tudo pra tentar uma vida melhor, mais digna em SP. Conheceu meu padrinho, 20 anos mais velho. Separado, militar que tapava os ouvidos pra essa dor e ocupava todos os outros espaços, casa, filhos, conta no banco. Ela amava ele, silenciava quando achava prudente, gritava quando achava que devia. Chorava no meu quarto no fim do domingo.

 

20 anos de união quando enviuvou. Vida pra tocar, papelada a resolver e deu-se, ainda era casada, com seu grande amor que abandonou esperando no portão ela voltar da costura, como de costume. Tem que resolver.
Se encontraram envelhecidos na pracinha da cidade, ele muito sofrido, a cara acabada de sol, os cabelos ralos, os olhos iguais, ela disse.

 

Chorou.

 

Voltou pra capital e escreveu uma carta – deveriam tentar novamente, afinal uma emoção ignorada a tanto tempo e ainda tem sol, não se pode privar a vida desses momentos.  Ele respondeu com uma letra muito ruim, fizeram planos. O grande amor morreu 2 meses depois, fulminante, disseram. Era pra ser e não era pra ser, ela me disse nesse fim de domingo com uma das minhas filhas nos braços.
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